
Uma nota no jornal foi o começo de tudo. Estavam abertas as inscrições para o 8º Laboratório de Roteiros de Cinema do Sesc. Mas o prazo era apertado: 30 dias. Imediatamente lembramos de “O Cabeleira”.
Poucos meses antes havíamos lido esse que é considerado o primeiro romance regionalista do Brasil, escrito por Franklin Távora em 1876. O livro narra a trágica história de José Gomes, conhecido como Cabeleira, um bandoleiro que aterrorizou Pernambuco no século XVIII. Em uma leitura rápida, um filme saltara aos olhos. Um filme bastante atual. Forte. Violento. Parecia ser possível fazer uma adaptação a tempo de participar do concurso.
Em vinte dias terminamos o primeiro tratamento. Mais do que uma adaptação, foi quase uma tradução da linguagem literária para a linguagem cinematográfica. Nos concentramos na primeira metade e no final do romance. Ignoramos o resto. Fora isso, mexemos pouco. Várias cenas do roteiro eram idênticas ao livro.
Para nossa surpresa, fomos selecionados. O Laboratório, organizado por Carla Esmeralda, é uma experiência única para os roteiristas. É a chance de ter seu trabalho analisado e criticado por quem entende do assunto. Passamos três dias em Nogueira pensando apenas em cinema. “O Cabeleira” foi dissecado por cinco consultores talentosos e generosos: Anne-Louise Trividic, Michel Fessler, Sérgio Goldenberg, Carolina Kotscho e Bráulio Mantovani. As críticas foram duras. Faltava conflito em nosso roteiro. Precisávamos melhorar a relação entre o Cabeleira e seu pai.
Voltamos para o Rio e começamos a trabalhar no segundo tratamento. Acreditávamos que a chave para endireitar o roteiro estava na infância de José Gomes. Testamos várias opções até nos decidirmos pela versão atual. Hoje, acreditamos que é exatamente a infância que define a história: a desilusão de um filho ao descobrir que seu pai não é o herói por ele idealizado. Estávamos terminando o novo tratamento quando recebemos o convite da Desiderata para publicar “O Cabeleira” em quadrinhos. Adoramos a idéia.
E então chegou Allan Alex, “a lenda”. Por mais de um ano acompanhamos, fascinados, o roteiro ganhando vida nos traços de Allan. Graças a ele, aí vem o Cabeleira… Melhor fechar a porta.