Confesso que é um prazer falar sobre personagem, estrutura, trama, conflito e tudo mais que envolve a construção de uma boa história de HQ ou cinema. Um dos conceitos mais fantásticos (e muitas vezes ignorado) chama-se: TEMA. Todo filme ou quadrinho deveria ter um tema. Minha história é sobre vingança? Ou é sobre redenção? Ou quem sabe é sobre a perda de um grande amor? Dominar o tema é saber que as decisões que são tomadas ao longo do roteiro são propositais, mas não evidentes. Nada é aleatório. Quem melhor explicou isso foi Sidney Pollack, no livro “Grandes Diretores de Cinema”. Transcrevo um trecho aqui:
O modo como funciono é o seguinte: tento determinar previamente o tema do filme, sua idéia central. E uma vez que sei qual é essa idéia, uma vez que a domino, todas as decisões que tomo ao longo do trabalho decorrem naturalmente dela, são inconscientemente influenciadas por ela. E, pra mim, um filme é bem-sucedido quando cada escolha que foi feita é coerente em relação ao tema inicial. Por exemplo, Três Dias de Condor é um filme sobre a confiança e a desconfiança. Redford encarna um personagem confiante demais que vai aprender a não acreditar mais em ninguém. Faye Dunaway encarna uma mulher que não confia em ninguém e que, na sequência dessa experiência dramática, vai aprender a se abrir. Entre Dois Amores, em compensação, é um filme sobre a posse. Meryl Streep tenta impor seu poder sobre tudo. Ela chega ao ponto de tentar desviar um rio. E, principalmente, ela tenta possuir Redford, que é a própria expressão da liberdade. Se considerarmos e analisarmos esses dois filmes, sequência por sequência, eu deveria poder justificar cada escolha de direção em relação a essas idéias. Comparo frequentemente esse conceito do tema central com o modo como um escultor modela uma estátua. Ele começa criando uma espécie de esqueleto de metal, depois coloca pouco a pouco sua argila e a modela para lhe dar forma humana. É o esqueleto que permite que a estátua se sustente. Sem ele, ela ruiría. Mas quando a estátua está terminada, não se deveria de modo algum ver o esqueleto, isso estragaria tudo. E, no cinema, é a mesma coisa. Não quero de modo algum que, enquanto assiste a Três Dias de Condor, o espectador pense: “ah, é um filme sobre confiança!”. Se isso acontecer, é porque fiz mal meu trabalho. O que deve ocorrer é que o espectador chegue a sentir, inconscientemente, que alguma coisa verdadeiramente orgânica e coerente nesse filme, que nada nele foi feito de maneira arbitrária. Até mesmo o cenário deve ser um reflexo do tema principal. – Sidney Pollack


