Vinho, cinema e os capetas.

Julho 30, 2009 por Leandro

mondovinoBig

O Hiroshi levantou uma questão interessante no post anterior (e o Hiro completou com um comentário hilário). O cinema tem caras diferentes dependendo de onde é feito.  Mas tenho a sensação que de uns tempos pra cá essas diferenças estão diminuindo.

Em 2004, o cineasta e enólogo americano Jonathan Nossiter lançou um documentário que se tornou um hit. Mondovino falava sobre a

O capeta dos vinhos

O capeta dos vinhos

globalização e seus efeitos devastadores para o mundo do vinho. Segundo Nossiter, os vinhos produzidos em diferentes regiões do planeta, em terrenos diferentes, com climas diferentes e, principalmente, por vinicultores diferentes, têm características únicas, particulares e fascinantes. O problema é que essas diferenças estão sumindo. Tudo teria começado quando os vinicultores perceberam a influência decisiva do crítico de vinhos Robert Parker na decisão de compra dos consumidores. Uma crítica positiva de Parker aumenta imediatamente o preço do vinho e suas vendas. Uma crítica negativa pode arruinar a vinícula. Não demorou para os vinicultores adequarem seus vinhos ao gosto do crítico, levando a uma padronização do sabor.

O capeta do cinema

O capeta do cinema

Essa é, resumidamente, a tese defendida por Nossiter em seu filme. Mas ela não se aplica apenas aos vinhos, funciona também para o cinema. E se no mundo dos vinhos o capeta é o Robert Parker, no mundo do cinema um dos mais endemonizados é, sem dúvida, o consultor e professor de roteiros Syd Field. Depois de trabalhar por alguns anos avaliando roteiros para uma produtora, Syd Field escreveu o Manual do Roteiro, onde ensina todos os segredos para se escrever um bom filme. Segundo seus critérios, é claro. Ele apresenta em seu manual o paradigma dos três atos, com seus pontos de viradas, ponto médio e clímax. Seus críticos chamam o paradigma de receita de bolo e não deixam de ter razão. Seguindo os ensinamentos de Syd Field ao pé da letra o roteirista corre o sério risco de fazer um roteiro careta, duro, parecido demais com um filme americano. Mas com um pouco de bom senso e visão crítica as dicas de Syd Field podem ser muito úteis. Na verdade, ainda não encontrei melhor estrutura para contar a maioria das histórias em cinema do que a dos três atos.

Mas sem os exageros do nosso amigo capeta…

Filme Europeu x Filme Americano

Julho 29, 2009 por Hiroshi

nuvem
Uma das melhores definições sobre a diferença entre um filme europeu e um filme americano foi feita pelo mestre Hitchcock. Ele disse que o filme europeu pode abrir com uma imagem de nuvens, cortar para outro plano de nuvens, e então cortar para um terceiro plano de nuvens.

Se um filme americano abre com uma imagem de nuvens, deve cortar para um plano de um avião, e se no terceiro plano o avião não tiver explodido, a platéia estará entediada.

Debate na Travessa (atualizado 2)

Julho 22, 2009 por Leandro

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Post muito rápido só para dizer que vai rolar um debate sobre quadrinhos na Travessa do Barrashopping no dia 28/07, terça feira, às 19:30hs. Os participantes serão:

Andre Conti – Editor do novo selo de HQ – Quadrinhos na Cia.

Carlos Patati – jornalista, roteirista e pesquisador de HQ.

Rick Goodwin – Curador do I Festival de Humor do Rio de Janeiro.

S. Lobo – Editor de várias HQs pela Desiderata (inclusive O Cabeleira) e roteirista da HQ Copacabana.

Carlos Matuck – Artista plástico, especialista em Tintin

Eles vão discutir a importância dos quadrinhos e o atual interesse de editoras e novos autores pelas HQs. E eu fui chamado pela Alzira, da Travessa, para mediar essa conversa.

Estão todos convidados!


Tema

Julho 20, 2009 por Hiroshi

Confesso que é um prazer falar sobre personagem, estrutura, trama, conflito e tudo mais que envolve a construção de uma boa história de HQ ou cinema. Um dos conceitos mais fantásticos (e muitas vezes ignorado) chama-se: TEMA. Todo filme ou quadrinho deveria ter um tema. Minha história é sobre vingança? Ou é sobre redenção? Ou quem sabe é sobre a perda de um grande amor? Dominar o tema é saber que as decisões que são tomadas ao longo do roteiro são propositais, mas não evidentes. Nada é aleatório. Quem melhor explicou isso foi Sidney Pollack, no livro “Grandes Diretores de Cinema”. Transcrevo um trecho aqui:

O modo como funciono é o seguinte: tento determinar previamente o tema do filme, sua idéia central. E uma vez que sei qual é essa idéia, uma vez que a domino, todas as decisões que tomo ao longo do trabalho decorrem naturalmente dela, são inconscientemente influenciadas por ela. E, pra mim, um filme é bem-sucedido quando cada escolha que foi feita é coerente em relação ao tema inicial. Por exemplo, Três Dias de Condor é um filme sobre a confiança e a desconfiança. Redford encarna um personagem confiante demais que vai aprender a não acreditar mais em ninguém. Faye Dunaway encarna uma mulher que não confia em ninguém e que, na sequência dessa experiência dramática, vai aprender a se abrir. Entre Dois Amores, em compensação, é um filme sobre a posse. Meryl Streep tenta impor seu poder sobre tudo. Ela chega ao ponto de tentar desviar um rio. E, principalmente, ela tenta possuir Redford, que é a própria expressão da liberdade. Se considerarmos e analisarmos esses dois filmes, sequência por sequência, eu deveria poder justificar cada escolha de direção em relação a essas idéias. Comparo frequentemente esse conceito do tema central com o modo como um escultor modela uma estátua. Ele começa criando uma espécie de esqueleto de metal, depois coloca pouco a pouco sua argila e a modela para lhe dar forma humana. É o esqueleto que permite que a estátua se sustente. Sem ele, ela ruiría. Mas quando a estátua está terminada, não se deveria de modo algum ver o esqueleto, isso estragaria tudo. E, no cinema, é a mesma coisa. Não quero de modo algum que, enquanto assiste a Três Dias de Condor, o espectador pense: “ah, é um filme sobre confiança!”. Se isso acontecer, é porque fiz mal meu trabalho. O que deve ocorrer é que o espectador chegue a sentir, inconscientemente, que alguma coisa verdadeiramente orgânica e coerente nesse filme, que nada nele foi feito de maneira arbitrária. Até mesmo o cenário deve ser um reflexo do tema principal. – Sidney Pollack

Ainda sobre o Curso de Quadrinhos

Julho 20, 2009 por Hiroshi

Não posso deixar de comentar: semana passada estive com o Leandro e o Arnaldo Branco falando sobre Graphic Novel e Adaptação no curso “Arte sequencial, humor gráfico e outros eufemismos”. Gostei muito da turma, que estava interessadíssima. Espero que todos tenham captado alguns conceitos importantes e, sobretudo, que passem a ver adaptações com outros olhos!

Obrigado a todos que compareceram!

Curso de Quadrinhos

Junho 21, 2009 por Leandro

Estacao

O Hiroshi e eu fomos convidados pelo incansável Arnaldo Branco para participar de um curso de quadrinhos do Grupo Estação. Vamos falar sobre graphic novels e adptações.

Para quem estiver interessado:

Arte sequencial, humor gráfico e outros eufemismos

Mediador: Arnaldo Branco.
Com: Allan Sieber, Leandro Assis, Hiroshi Maeda, André Dahmer e Leonardo.

De 13 a 16 de julho

Das 19h30 às 22h
Carga horária: 4 aulas
Custo: R$ 300,00 à vista ou 2X R$ 175,00
Local: Grupo Estação – Rua Voluntários da Pátria, 53
Botafogo, Rio de Janeiro

Mais detalhes no site do Grupo Estação.

O Brasil nos Quadrinhos

Junho 11, 2009 por Leandro

Um de nossos maiores quadrinistas foi Flávio Colin, que dizia: “Considero as HQs uma missão. E como todo bom missionário, dedicado e tenaz, acredito que um dia, através delas, o Brasil será mais brasileiro.

Pois Colin teria orgulho de três belos quadrinhos lançados recentemente: Copacabana (Desiderata), Os Brasileiros (Conrad) e Sábado dos Meus Amores (Conrad). São três álbuns que falam do Brasil. Cada um de seu jeito. Os três obrigatórios.

1. Copacabana

CopaSou suspeito para falar. Afinal, esse quadrinho é de autoria de Lobo e Odyr. O primeiro foi editor do Cabeleira e o segundo foi o responsável por sua belíssima capa. Pois esses dois craques se juntaram para retratar o submundo de Copacabana. Um universo povoado por prostitutas, travestis, gringos, policiais corruptos e malandros. A trama noir criada por Lobo é bastante envolvente, mas torna-se brilhante quando revela os pequenos personagens que compõem o pano de fundo do bairro. Como o vendedor de Halls no ônibus,  a gangue de travecos, o velhinho do café, a velha do pó e tantos outros. Os bate-papos das putas pelos bares parecem tão autênticos que não deixam dúvida: Lobo sabe do que está falando. E a arte de Odyr consegue o que parecia impossível. Copacabana está mais imunda e decadente do que nunca.

2. Os Brasileiros

ToralAndré Toral é historiador e antropólogo e isso fica óbvio lendo seu álbum. No bom sentido. Ele não quer nos dar aulas. Quer apenas  falar daqueles que podem ser considerados os verdadeiros brasileiros. Ou pelo menos os primeiros brasileiros. As sete histórias do livro tratam de índios, da época do descobrimento até os dias de hoje.  Como o próprio Toral explica, esse album é o seu jeito de responder a uma pergunta que ele se faz sempre que viaja para o litoral paulista: “onde estão aqueles que por milhares de anos habitavam esse litoral, muito antes da chegada dos portugueses?” Os índios de Toral não têm nada de coitados, fracos ou submissos. São guerreiros, prontos para lutar com os inimigos e devorá-los. Literalmente. O canibalismo é assunto recorrente no quadrinho. Duas histórias nãos são inéditas – O Negócio do Sertão, publicada em 1991 como Graphic Novel e O Caso dos Xis, publicada em duas partes em 1992. Mas isso não diminui em nada o prazer de ler Os Brasileiros.

3.  Sábado dos Meus Amores

Quintanilha

Sou fã de Marcello Quintanilha desde a época em que ele ainda assinava Marcello Gaú. A primeira vez que vi seu trabalho foi na Bienal de Quadrinhos de 91. E fiquei impressionado com seu desenho realista, claramente baseado em fotos, e com a sua capacidade para capturar nos quadrinhos um brasileiro poucas vezes retratado em nossos gibis. É o brasileiro derrotado, pobre, que compra cerveja fiado em  pé-sujo, que é torcedor fanático de futebol, que sente inveja e compra briga. Estava ansioso para ver esse livro, pois o anterior havia me decepcionado bastante.  Fealdade de Fabiano Gorila, que Quintanilha lançou em 99, era uma história de apenas 16 páginas que foi rediagramada para ocupar umas 80. Acho que com isso a narrativa e os desenhos de Quintanilha ficaram bastante prejudicados. Pois foi com muito alívio e alegria que devorei Sábado dos Meus Amores. A edição está caprichada, com capa dura, e traz Marcello Quintanilha no auge da forma. Suas histórias são comoventes e seu desenho está deslumbrante.

Recomendo os três livros. Quadrinhos brasileiros, sobre brasileiros, da melhor qualidade. Colin ia adorar.

Lançamento de “Copacabana”

Junho 10, 2009 por Hiroshi

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Reservem suas agendas! Na próxima semana haverá o lançamento de Copacabana, de Odyr e Lobo. Dia 15 no Rio e 17 em SP.

Quadrinhos Espanhóis: David Rubín

Junho 9, 2009 por Hiroshi

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Minha maior surpresa em relação aos quadrinhos espanhóis chama-se David Rubín. Seu traço lembra um pouco o de Craig Thompson e suas histórias falam – na maioria das vezes – sobre a solidão e a perda de um grande amor. Li os quadrinhos “El Circo del Desaliento” e “La Tetería del Oso Malayo” (ambas publicações da editora ASTIBERRI) e virei fã incondicional.

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Infelizmente, esses são os típicos quadrinhos que dificilmente pousarão em território brasileiro. Portanto, se você estiver de viagem pela Espanha, não hesite em comprá-los.

Adaptações

Junho 4, 2009 por Leandro

Semin

Quem acompanha o mercado editorial de quadrinhos no Brasil já sabe que está havendo uma onda de adaptações literárias para gibis. Machado de Assis, Eça de Queiroz, Jorge Amado,  são alguns dos autores que tiveram suas obras adptadas. Só o conto “O Alienista”, de Machado de Assis, ganhou umas três versões em quadrinho no ano passado.

Acho que essa tendência pode ser explicada, em parte, pelo PNBE,  Programa Nacional Biblioteca da Escola. Para incentivar a leitura, o governo compra livros e quadrinhos e distribui para as escolas do país. Visando essa compra pelo governo, as editoras apostam nas adaptações literárias. O raciocínio é banal: se é para ser lido na escola, que seja Machado de Assis, Eça de Queiroz ou Jorge Amado.

“O Cabeleira”, como os poucos leitores desse blog estão cansados de saber, é uma adaptação do romance de Franklin Távora. A diferença é que essa adaptação não foi pensada para quadrinhos e muito menos visando o PNBE (mas é claro que ficaremos muito felizes se o governo decidir levar nosso álbum para as crianças!). A Desiderata, quando nos convidou para publicar nosso roteiro em quadrinhos, também não pensava em vendas para o governo.  O que Marta Batalha e Lobo queriam era publicar bons quadrinhos de autores nacionais.

Mas o fato é que agora Hiroshi e eu fazemos parte do time de autores que adaptaram obras literárias para os gibis. Por isso, já participamos de debate na Travessa, demos entrevista para o Starte do GNT e agora fomos convidados para participar de um curso de quadrinhos do grupo Estação. Falaremos sobre “Graphic Novel” e, é claro, adaptação (quando tivermos mais detalhes sobre esse curso, postaremos aqui, não se preocupem!).

E agora descobri, na internet, que entre os dias 16 e 19 de Junho  acontecerá o 3º Seminário de Literatura Brasileira, na Universidade Estadual de Montes Claros. Nesse ano, o Seminário vai discutir as representações do sertão e do norte do Brasil na literatura nacional. Para a minha surpresa, a doutoranda da USP Jane Adriane Gandra, professora do curso de Letras da Unimontes, vai falar sobre o nosso quadrinho!    

No site do Seminário, essa é a descrição da palestra que a professora fará:

O cabeleira, de Franklin Távora, nas histórias em quadrinhos

Importantes obras de Machado de Assis, como o Alienista e Memórias póstumas de Brás Cubas, já foram convertidas para a linguagem das histórias em quadrinhos e a lista só tende a aumentar com outros nomes consagrados. Nos dias atuais, não há como negar os muitos projetos apresentados pelas editoras nas promoções de adaptações dos clássicos da Literatura Brasileira para o mundo dos gibis. Sobre isso, as defesas são inúmeras, a mais utilizada é sobre o fato de estarem elas contribuindo para a popularização de uma literatura distanciada da maioria de nossos leitores, principalmente dos adolescentes. Assim, sob o formato dos grafich novel, muitos romances, considerados “monótonos” e complexos por este público, ganham uma forma ilustrativa e simplificada, bem ao estilo teens. Seguindo a tendência, em 2007, a editora Desiderata lançou no gênero dos quadrinhos O cabeleira, de Franklin Távora – romance regionalista inspirado na trajetória do cangaceiro José Gomes. Com base no exposto, e considerando que toda adaptação não deixa de ser um outro texto – novos olhares contando algo que já foi narrado –  é nossa proposta, neste ensaio, analisar quais elementos narrativos do livro de 1876 foram modificados pelo sincretismo instituído entre o verbal e o visual das HQs.

Estou muito curioso para saber a que conclusões a professora terá chegado!

Entrevista de Craig Thompson no Gibizada

Maio 30, 2009 por Hiroshi

Hoje saiu uma ótima matéria do Télio Navega no caderno “Prosa e Verso” do jornal O Globo sobre os novos lançamentos de HQs pela editora Companhia das Letras (sob o selo Quadrinhos na Cia). Ele também faz uma entrevista com Craig Thompson, autor de “Retalhos”, que pode ser conferida no seu blog Gibizada.

Retalhos (Blankets) é minha HQ favorita. Jamais li qualquer quadrinho que se comparasse a este. Eu sempre me interesso por histórias sobre relacionamento, desencontros, amor e separação. E Retalhos fala sobre isso tudo em suas mais de 600 páginas.

blankets
Na minha humilde opinião, é obra de arte em forma de quadrinhos. Imperdível!

Quadrinhos espanhóis: Nacho Casanova

Maio 28, 2009 por Hiroshi

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Como eu comentei anteriormente, minha mala veio cheia de HQs novas – quase todas de quadrinistas espanhóis. A medida que eu for lendo-as, vou postando aqui. As primeiras que li foram “Autobiografía no autorizada” volumes 1 e 2, de Nacho Casanova. Seu desenho é simples, mas combina com as histórias, que são divertidas. Elas relatam situações do cotidiano, como por exemplo dois amigos conversando sobre mulheres ou um casal discutindo a relação.

Quem quiser saber mais sobre as obras de Nacho Casanova, pode visitar seu blog aqui.