Archive for Junho, 2008

Chica (Cenas Excluídas – parte I)

Junho 30, 2008

O roteiro do Cabeleira começava com nosso protagonista matando Chica, mulher do Timóteo. Era uma cena forte, muito violenta. No Sesc, todos os consultores foram contra. Diziam que impedia que o público tivesse qualquer empatia pelo Cabeleira. Além disso, segundo eles, nosso roteiro ficava com três aberturas. Demorava a começar. Fomos teimosos. Mantivemos a Chica.

Lobo (editor da HQ) e Allan Alex tiveram, então, uma sábia idéia. Mostrar apenas o começo da cena na abertura. Só veríamos Chica ser morta em um flash-back perto do fim da história. Com isso, salvaríamos pelo menos a questão da empatia. Concordamos. Assim foi feito.

Mas quando lemos o quadrinho pronto, demos o braço a torcer a nossos consultores. Mesmo não mostrando a morte de Chica, a cena da abertura atrasava o início da história. Decidimos, então, cortar Chica do quadrinho.

Aqui estão alguns dos maravilhosos desenhos de Allan Alex que, lamentavelmente, não foram para o “Making Of” da HQ.

Michel Fessler

Junho 27, 2008

Ter “O Cabeleira” selecionado para o laboratório de roteiros do SESC foi motivo de grande orgulho, uma vez que este é um dos concursos mais prestigiados no meio. Boa parte da nova safra de filmes brasileiros passou pelo crivo de consultores brasileiros e estrangeiros, que já analisaram “Cinema, Aspirinas e Urubus”, “Cidade de Deus”, “Eu, Tu, Eles”, “Se Eu Fosse Você”, “O Invasor”, “O Ano em que meus pais saíram de férias”, “O Outro Lado da Rua” entre outros tantos.

Michel Fessler, roteirista francês de “A Marcha dos Pinguins” e “Caindo no Ridículo”, foi um dos nossos consultores no SESC e o primeiro a sugerir que “O Cabeleira” virasse uma HQ (mencionando ainda que aquela história faria sucesso na França!). Mal poderíamos imaginar que receberíamos um convite de Desiderata alguns meses depois.

Fessler é tranquilo e sereno. Todos os seus conselhos sobre nosso roteiro foram pertinentes. Ele falou muito da infância de José Gomes e como deveríamos escrevê-la “de dentro para fora”. No final de nossa conversa, ele comentou que escreveu o roteiro de “A Marcha dos Pinguins” após ter visto as imagens feitas por Luc Jacquet, onde 70% delas mostravam pinguins morrendo.

E assim mesmo, ele fez um filme sobre a vida.

Estudo dos Personagens

Junho 20, 2008

Em outubro de 2006, quando vimos os primeiros estudos para os personagens, percebemos que Lobo havia acertado em cheio em sua indicação. Além de sua arte extraordinária, Allan trouxe varias idéias para a saga do terrível bandido. É coisa dele, por exemplo, o pai descendente de holandeses. Assim como o nariz quebrado do Cabeleira (quem prestar atenção poderá notar o exato momento em que José Gomes, ainda criança, quebra o nariz).

O Cabeleira vem aí…

Junho 14, 2008

Uma nota no jornal foi o começo de tudo. Estavam abertas as inscrições para o 8º Laboratório de Roteiros de Cinema do Sesc. Mas o prazo era apertado: 30 dias. Imediatamente lembramos de “O Cabeleira”.

Poucos meses antes havíamos lido esse que é considerado o primeiro romance regionalista do Brasil, escrito por Franklin Távora em 1876. O livro narra a trágica história de José Gomes, conhecido como Cabeleira, um bandoleiro que aterrorizou Pernambuco no século XVIII. Em uma leitura rápida, um filme saltara aos olhos. Um filme bastante atual. Forte. Violento. Parecia ser possível fazer uma adaptação a tempo de participar do concurso.

Em vinte dias terminamos o primeiro tratamento. Mais do que uma adaptação, foi quase uma tradução da linguagem literária para a linguagem cinematográfica. Nos concentramos na primeira metade e no final do romance. Ignoramos o resto. Fora isso, mexemos pouco. Várias cenas do roteiro eram idênticas ao livro.

Para nossa surpresa, fomos selecionados. O Laboratório, organizado por Carla Esmeralda, é uma experiência única para os roteiristas. É a chance de ter seu trabalho analisado e criticado por quem entende do assunto. Passamos três dias em Nogueira pensando apenas em cinema. “O Cabeleira” foi dissecado por cinco consultores talentosos e generosos: Anne-Louise Trividic, Michel Fessler, Sérgio Goldenberg, Carolina Kotscho e Bráulio Mantovani. As críticas foram duras. Faltava conflito em nosso roteiro. Precisávamos melhorar a relação entre o Cabeleira e seu pai.

Voltamos para o Rio e começamos a trabalhar no segundo tratamento. Acreditávamos que a chave para endireitar o roteiro estava na infância de José Gomes. Testamos várias opções até nos decidirmos pela versão atual. Hoje, acreditamos que é exatamente a infância que define a história: a desilusão de um filho ao descobrir que seu pai não é o herói por ele idealizado. Estávamos terminando o novo tratamento quando recebemos o convite da Desiderata para publicar “O Cabeleira” em quadrinhos. Adoramos a idéia.

E então chegou Allan Alex, “a lenda”. Por mais de um ano acompanhamos, fascinados, o roteiro ganhando vida nos traços de Allan. Graças a ele, aí vem o Cabeleira… Melhor fechar a porta.