Archive for Agosto, 2008

Professor? Eu!?

Agosto 24, 2008

Desde o início do ano dou aula de Roteiro 1 na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. O convite me pegou de surpresa. Fui chamado numa sexta-feira para começar na segunda. Eu nunca tinha dado aula e sou tímido. Muito tímido. Não preciso dizer, então, que depois de aceitar o convite, entrei em pânico. A Carla teve que ter muita paciência.

Estava tão nervoso com a perspectiva de encarar 20 alunos que cheguei ao cúmulo de procurar ajuda no Google. Verdade. Escrevi “a primeira vez que dei aula”, na esperança de encontrar relatos de outros professores de primeira viagem. O mais bizarro é que encontrei! E algumas dicas me ajudaram bastante a ficar mais calmo.

Então aqui vai a minha pequena contribuição aos próximos neuróticos que buscarem socorro na internet.

O primeiro dia é o mais difícil. Se tiver tempo, prepare alguma coisa para falar. Mas não fique muito obcecado em já ter matéria nesse primeiro dia. Fale sobre algo que você conhece bem. Sua experiência, porque você está ali. Não precisa ser muita coisa. E coloque os alunos para falar. Peça para que se apresentem, pergunte por que procuraram aquele curso. É sempre bom também deixar que façam perguntas.

Mas o mais importante. Seja honesto. Diga que é a primeira vez na vida que você dá aula. Os alunos serão compreensivos e te ajudarão. Pelo menos funcionou comigo.

Em pouco tempo já estava me divertindo. Despejei sobre os alunos ação dramática, conflito, clímax, atos e narrativa. E eles me devolveram prédios falantes, padres assassinos, fotógrafas angustiadas e traficantes.

Aprendi muito nesse primeiro semestre. E gostei tanto da experiência, que quando o pessoal da Escola me chamou para também dar aula de Roteiro 2 no segundo semestre, já não precisei do Google. Respondi sim no ato.

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O Carcaju

Agosto 21, 2008

Ontem, na Saraiva da Ouvidor, testemunhei um diálogo que mostra a dificuldade de se lançar um livro como O Cabeleira em um país como o nosso. Dois sujeitos barbados fuçavam a estante de quadrinhos. Um deles vê a capa de O Cabeleira e o diálogo começa:

– Allan Alex. O Cabeleira.

– Deve ser uma merda.

– Por quê?

– Porque deve.

E pronto. O cara decidiu, sem nem ao menos abrir o livro, que O Cabeleira é uma merda.

Pensei em repetir para o sujeito a pergunta de seu amigo. Mas desisti. Afinal, eu sei a resposta. Sei muito bem porque ele acha que O Cabeleira é uma merda. O Cabeleira não fala inglês. É de Pernambuco. Talvez se tivesse um nome mais cool como Wolverine ou Sandman o sujeito até se dignasse a ler o quadrinho.

Mas tinha que ser em inglês. Porque nem Sandman ou Wolverine venderiam quadrinho no Brasil se tivessem seus nomes traduzidos. Ou você acha que alguém se interessaria por um personagem chamado Homem Areia? E que tal Carcaju? Ou Glutão?

É isso mesmo. Sandman, é Homem Areia. E Wolverine é carcaju, também conhecido como glutão. É o simpático bichinho no começo do post.

E o fato de o Cabeleira ser um bandoleiro, uma espécie de cangaceiro, também não ajuda. Ele bem que podia ser um pistoleiro do velho oeste americano. Aposto que faria mais sucesso com os leitores. Mas para ser um grande sucesso de vendas só vestindo uma capa e a sunga por cima da calça. Aí sim teriamos filas de fãs atrás do livro.

Para terminar, uma cena do quadrinho Pussey!, de Daniel Clowes:

A Bela Menina

Agosto 18, 2008

Peço licença ao Hiroshi para fazer um jabá. Mas só vou fazer porque o livro merece. E a autora também.

A bela menina do cachorrinho é um livro de tirar o fôlego. E de se ler de um fôlego só. Conta a inacreditável história (real) de Ana Karina de Montreuil, que aos 15 anos se envolve com um perigoso traficante de mais de 30. Ana cai na lábia do bandido e aceita simular seu próprio sequestro para arrancar um dinheiro de seu pai. Mas o que era para ser de mentirinha vira um pesadelo, com direito a estupro. A partir daí, a vida de Ana torna-se uma sucessão de escolhas erradas, negligência dos pais e abuso de drogas (principalmente cocaína). Na falta de algo para dar um barato, Ana aceita até tomar caipirinha de álcool Pring.

Hoje, aos 35, Ana Karina está recuperada e feliz, ao lado de suas duas filhas. Um verdadeiro milagre, depois de tudo que passou.

A autora é Carla Mühlhaus, que no minuto seguinte à sua alfabetização já sabia que o que queria da vida era ser escritora. E se tornou uma de mão cheia. Graças a ela, a história de Ana não virou o pesado dramalhão que se poderia esperar. O texto da Carla é leve, delicado e emocinante. Além de muito bem humorado, o que faz toda a diferença.

Recomendo muito. E quem quiser conhecer mais detalhes desse e de outros trabalhos da Carla, pode visitar seu blog: A Casa do Moinho.

Ah, e pra quem não sabe, a Carla é minha mulher.

Sergio Leone?!

Agosto 7, 2008

Uma crítica muito bacana que eu li sobre o Cabeleira foi escrita pelo roteirista Cadu Simões, na qual ele menciona que a HQ é “uma excelente história de vinganças e desencontros, onde não há de fato heróis e apenas a violência impera, algo muito semelhante ao que acontece nos faroestes de Sergio Leone.”

Semana passada eu encontrei com o Leandro e Lobo, nosso editor, para falarmos do próximo projeto. O roteiro está pronto e já foi aprovado por todos. De fato, este foi ainda mais elogiado que O Cabeleira. O curioso é que algumas pessoas que leram o novo roteiro disseram que conseguimos fazer um “Era Uma Vez na América”… brasileiro!

Fiquei todo orgulhoso.

O Valor da Pesquisa

Agosto 3, 2008

Quando terminamos o primeiro tratamento de O Cabeleira, mostramos o roteiro para alguns amigos. Entre eles estava o João Paulo Rodrigues, historiador. Conversando com ele, sentimos a necessidade de pesquisar um pouco mais sobre as armas da época.

Encontramos muitas informações na internet. Vários textos falavam sobre os diferentes tipos de bacamartes, outros mostravam como as armas eram municiadas. Sem falar nas muitas fotos e ilustrações.

Além de nos dar confiança para escrever as cenas com armas, essa pesquisa acabou nos dando uma bela cena: Joaquim ensinando o jovem José Gomes a atirar. É o momento em que pai e filho começam a se aproximar. E o que os une é o interesse pelas armas de fogo. Pior, o interesse por matar.

Mais tarde, passamos nossas pesquisas para o Allan Alex, que as estudou minuciosamente. Aqui estão alguns exemplos dos estudos do Allan.